O Corpo
Nós não devemos mover o Corpo.
Desde que eu e Bruna construímos uma amizade, ela me diz para assistir Buffy: A Caça-Vampiros, uma série que estreou em 1997 e terminou em 2003, quando eu ainda tinha nove anos. Em notas breves, Buffy Summers é uma adolescente que carrega o fardo ancestral de ser uma caçadora, a única garota em sua geração com uma força sobre-humana capaz de combater vampiros, demônios e todas as outras forças das trevas. A única coisa que ela não consegue derrotar por completo nos é apresentada no 16º episódio da 5ª temporada, intitulado The Body (O Corpo), originalmente transmitido há pouco mais de 25 anos.
No começo do episódio, Buffy entra em casa e procura pela mãe. “Mãe?”, ela pergunta, duas vezes, caminhando para mais perto do sofá. “Mamãe?”, de novo, agora mais perto, e numa voz mais baixa, como uma criança falaria. Ela, depois, liga para o serviço de emergência e tenta, balbuciante, explicar que sua mãe precisava de ajuda. Entre uma instrução e outra, o seguinte diálogo acontece:
Buffy: “Ela está fria”
Socorrista: “O corpo está frio?”
Buffy: “Não, minha mãe. Devo aquecê-la?”
Quando minha mãe me ligou para me contar que minha avó havia falecido, no começo de setembro de 2020, numa manhã de um agora distante ano pandêmico, uma das coisas de que mais me recordo é ela me dizendo, ainda no hospital, que estava esperando que os responsáveis liberassem o corpo para que ela pudesse entregar a eles a roupa que escolheu para a minha avó usar. Lembro especificamente de ouvir ela dizer que escolheu uma roupa bem quentinha e algo parecido com “para que ela não sinta frio”. Na hora, pensei comigo que ela ainda não havia processado a situação em que se encontrava. Em retrospecto, acho que foi a reação mais humana que já registrei; a justaposição ao falar do Corpo e de minha avó, e a necessidade de não permitir que os dois fossem uma coisa só, indicava que a nova realidade ainda não havia se assentado por completo na minha mãe.
Durante todo o episódio de Buffy, o silêncio marca presença. Interrompido apenas por breves flashbacks e pontuais comentários dos personagens a respeito do absurdo da situação, ou instruções de terceiros que, em nome das burocracias, ditam o ritmo segundo o qual cada um dos envolvidos se vê obrigado a processar os eventos, é o silêncio que, ao fim e ao cabo, se faz Rei. General, Comandante. O silêncio é o que permite que o Corpo tenha sua presença relevante.
Recentemente, mais uma vez me vi diante de todos os protocolos envolvidos quando a Morte visita uma família. No trajeto até o encontro, o silêncio no carro me fez observar atentamente todos os outros automóveis que nos ultrapassavam. Alguns meses antes, cheguei a brincar, após um rompante de quem dirigia, que ele devia pegar leve, porque a pessoa atrás do outro volante podia estar com diarreia e maluco para chegar em casa o mais rápido possível. Ironicamente, agora, eu pensava, sem brincadeiras ou risos, que, se dependesse de nós, o percurso podia durar mais que o necessário, sem problemas, e que dessa vez éramos nós que precisávamos contar com um bocado de compreensão de quem quer que nos ultrapassasse.
Eu tenho o hábito de observar pessoas em aeroportos ou estações de metrô e imaginar o que é que se passa com elas naquele momento. Observando de fora, dessa vez, me perguntei se alguém fazia a mínima ideia do que estávamos vivendo. Mas, sendo sincera, acho que nunca cheguei, eu, a cogitar aquilo para qualquer estranho com quem já cruzei por aí. Talvez por autodefesa, ou porque costumo pensar em nascimentos, casamentos, diarreia, e até em alguém preso para fora de casa, mas nunca propriamente na Morte.
Como nosso encontro era marcado, todos os minutos que nos levaram até ele foram intermináveis. Durante dias, cozinhei almoços, preparei camas, escolhi roupas, tudo milimetricamente pensado de acordo com o planejamento do inadiável momento. Por vezes, me peguei pensando “são essas as últimas horas”, já que tudo passa a ser último. A última segunda-feira, a última refeição, o último encontro, o último chocolate quente. Não há necessidade ou espaço para comprar um presente sequer. A inevitabilidade da certeza de que, depois do fim, nada de matéria tem importância.
Quando alguém morre de repente, os que ficam são encarregados de tentar juntar as pecinhas do quebra-cabeças do que pensam que seriam os desejos de quem se foi: o que a pessoa gostaria de vestir, quais tipos e cores de flores gostaria que estivessem ao seu redor, como gostaria que fosse o velório. Muitas vezes, a Morte é apressada. De onde eu vim, alguém morre de manhã, e, entre papeladas, explicações médicas, soluços e cafés em copos plásticos, de noite já está embaixo do chão.
O encontro marcado permite uma dinâmica diferente. A Pessoa, antes do Corpo, escolhe a roupa, as músicas, as fotos, até mesmo o lugar em que prefere descansar. Com uma dignidade que poucas vezes cogitei. “Quero descansar ao lado de um carvalho, e perto de água. Prefiro que o que sou e visto vire adubo. Escolham onde, mas que seja assim”.
Além disso, nada fica por dizer, nenhum “e se?” fica a cargo da imaginação. A pessoa diz que ama e ouve que é amada, compartilha memórias e risadas, tenta deixar algum manual de instrução. A gente diz tudo que quer que ela saiba, e acho que essa talvez seja a maior confirmação de que, no fundo, todo mundo acredita, pelo menos um pouco, que nossa vida não termina aqui. Sinto como se aquela pessoa só tivesse ido viajar, e acho que esse é o máximo que a nossa mente nos autoriza pensar, porque a ideia da finitude talvez nunca seja totalmente possível de compreender.
"Mas eu não entendo! Eu não entendo como tudo isso acontece. Como passamos por isso. Quero dizer, eu a conhecia, e então ela está... é só um corpo, e eu não entendo por que ela simplesmente não pode voltar para dentro dele e não estar mais morta! É estúpido! É mortal e estúpido! E o Xander está chorando e não fala nada, e, e eu estava tomando ponche de frutas e pensei: bem, a Joyce nunca mais vai tomar ponche, nunca mais, e ela nunca mais vai comer ovos, ou bocejar, ou escovar o cabelo, nunca mais, e ninguém me explica o porquê.”
O rito que se segue também é muito diferente na Holanda. Depois do encontro, o Corpo permanece presente por uns dias, antes do enterro. Geralmente, uma semana. Tempo suficiente para a nova realidade forçar sua existência. Os familiares organizam as cerimônias em mínimos detalhes, quase como se planejassem um casamento ou uma formatura. Quem faz o quê, quem envia os cartões, quem carrega o caixão, quem discursa e qual música segue cada discurso, onde, como, quando. Uma formalidade muito à altura do evento.
Tudo conversado no outro cômodo.
No cômodo onde fica o Corpo, o silêncio permanece.
É como se um pequeno lugar sagrado passasse a existir, um lugar onde o tempo não passa de maneira linear e tudo parece frágil. Chegam flores, cartões, fotos, muitas visitas, mas, de alguma maneira que não se explica, tudo parece congelado no tempo. Tocar em quem morreu também não parece certo, ao menos para mim. Nós não devemos mover o Corpo!, é o que Buffy grita, ainda na sala, no que é o primeiro momento em que ela se refere à mãe não mais como mãe, mas Corpo, finalizando a transição. Ouvi algo semelhante de quem amo, nos eventos dos últimos dias. Disse ele: “quero colocar isso aqui, logo atrás”, ajeitando uma foto onde quem morreu sorria, logo atrás de onde então repousava o que agora é matéria.
“Isso [a foto] é quem ele era, isso [o Corpo] é o que ele era”.
Há muito mais a processar em relação aos últimos meses e dias. E se tem uma coisa que sei sobre luto é que ele nunca vai embora de verdade. Alguns meses depois da morte da minha avó, em algum momento liguei à minha mãe e tive o impulso de perguntar se ela visitaria minha avó naquele dia ou no outro, no apartamento dela, como se ela ainda estivesse lá. O tempo não é linear depois da morte. Sinto como se entrássemos numa espécie de transe do qual nunca sairemos de verdade, e neste estado temos de relevar alguns momentos de pouca racionalidade.
Escrevo cartas ao meu bisavô, que morreu há vinte anos, e volta e meia sonho com ele. Nos sonhos, consigo quase sentir o calor de seu abraço. Conversamos sobre diversas coisas que ele não viveu. Dialogamos sobre pessoas que ele não conheceu. Peço conselhos, e gosto de imaginar o que ele faria em determinadas situações - utilizo as respostas que encontro como bússolas. Penso que, enquanto eu estiver viva, também ele estará. Talvez por teimosia, me recuso a dizer adeus. Se eu sonho com ele, é porque ele existe. Em algum lugar, ele ainda é, mesmo que eu não veja seu Corpo há tanto tempo.
“Terei de sentir sua falta pelo resto da minha vida”, foi o que escreveu quem amo, no discurso de despedida. Numa das conversas enquanto voltávamos para casa, concluímos isso mesmo, que a partir de agora é aprender a viver com a presença da ausência, pois, se é verdade que o luto nunca vai embora, há tempos me convenci de que também aquela pessoa fica por aqui. Morto amado nunca para de morrer, como disse Mia Couto. E quão ignorantes seríamos se não acreditássemos que assim é.





Um relato lindo, delicado e ao mesmo tempo potente sobre viver o luto. Altos e baixos, dias bons e ruins, sempre com a certeza que a pessoa amada nunca irá embora <3 te admiro demais, amiga. Uma alegria imensa te ver fã de Buffy hehehe a série que me moldou (e, convenhamos, me criou) desde meus 09 anos. Acho que "The Body", além de ser um dos episódios mais importantes da história da televisão, mostra o quanto a série foi injustiçada nas premiações estadunidenses de seu tempo. Enquanto não ganhava prêmios, construiu uma legião de fãs fiéis e segue conquistando novos até hoje. Vida longa para a nossa caçadora <3
Quando meu pai morreu, 10 anos depois de um diagnóstico de Alzheimer eu já tinha tudo meio pensado. Mesmo assim eu me senti afundada até o joelho em areia mole.
Mas eu passei a me referia a ele morto como "de cujus", como aparece nos documentos jurídicos. Parte por humor e parte por um certo desespero. Meu pai era outra coisa.